Porque o meu autocuidado raramente é instagramável (e tudo bem)

Tempo de leitura: 4 minutos

Será que existe uma forma “certa” de autocuidado? 

Durante muito tempo achei que não estava a praticar o autocuidado “certo”. Afinal o meu não vinha com velas, nem com banhos longos, nem com manhãs perfeitas. E, sem dar por isso, comecei a medir o meu bem-estar por uma estética: a estética do descanso, da calma, da vida organizada.

O problema é que a vida real raramente é tão estética como vemos no instagram. Foi precisamente aí que percebi uma coisa muito importante: cuidar de mim na vida real, raramente é “aesthetic”. Às vezes é desconfortável, outras chato e às vezes não dá para transformar em conteúdo. Mas funciona e muito honestamente, isso é o que me interessa.

Quando autocuidado = performance (mesmo sem querer)

Há uma versão de autocuidado que aparece muitas vezes online e que por isso consumimos com frequência: leve, bonita, aspiracional, saída do “pinterest”. Quase sempre associada a:

  • rotinas longas e impecáveis,
  • imensos produtos e rituais,
  • tempo livre (como se fosse uma coisa neutra e garantida),
  • uma sensação de “vida resolvida”.

Atenção: não há nada de errado com velas, banhos longos ou rotinas que dão a percepção de que a manhã é infinita (humm…talvez um pouco se não forem feitos de forma consciente).


Para mim o problema começa quando isso se torna o padrão e o resto passa a parecer “menos autocuidado”, quando não é uma tradução direta. 

Quando a cabeça começa a dizer:

  • “Se não fizeste o ritual, não cuidaste de ti.”
  • “Se não ficou bonito, não conta.”
  • “Se não estás a fazer como ‘deveria’, estás a falhar.”

Se este for o sentimento é aqui que o autocuidado perde a função principal: sustentar-nos.

Pessoa com o calçado nas mãos

Autocuidado, para mim, é mais limites do que rituais

O meu autocuidado acontece muito mais nos limites do que nos rituais.

Não é glamoroso e não é instagramável… mas alguém fica bem com aquelas fitas na cabeça quando está acabada de acordar?! 

O que posso dizer é que o meu autocuidado é real, e é repetível mesmo em semanas difíceis.

1) Desligar quando queria continuar ligada

Às vezes o gesto mais simples é o mais difícil: desligar.

Ficar um dia inteiro sem abrir o Instagram, por exemplo.
Eu sei que hoje sofremos com mais frequência de FOMO (Fear Of Missing Out) e por isso aquela sensação de que “estou a perder qualquer coisa” aparece.

Mas mesmo assim faço o esforço para desligar, porque há dias em que estar constantemente ligada não me informa, só me esgota mentalmente. 

Autocuidado também é isto: escolher menos estímulo para ter mais presença.

2) Dizer “não”, mesmo quando parte de mim queria ir

Este é um clássico da vida adulta: às vezes apetece ir, mas também apetece ficar.

Durante muito tempo eu interpretava isto como indecisão, hoje vejo de outra forma: é o meu corpo a pedir espaço. Se cumpro sempre o que o meu corpo me diz, não… mas tento estar mais atenta ao que me “pede”.

Dizer “não” a convites (mesmo a coisas boas) pode ser autocuidado quando:

  • estás a precisar de silêncio,
  • tens a energia no limite,
  • sabes que vais “pagar” no dia seguinte.

Não é falta de vontade, nem antipatia é responsabilidade emocional. Na verdade, é uma das formas mais honestas de autocuidado: proteger a tua energia antes de ela acabar.

3) Dormir, mesmo quando a cabeça insiste que devias produzir

Dormir é um tipo de autocuidado pouco romântico e é fácil de ignorar e passar à frente.
Não dá para “mostrar” por isso não parece conquista, mas é muitas vezes o gesto mais essencial e importante de todos. 

Há dias em que a cabeça insiste que devias produzir mais, que devias aproveitar a noite ou que devias “adiantar coisas”. Só que estar cansada não me torna mais produtiva, pelo contrário só me torna menos presente, menos paciente, menos criativa.

Por isso, se o corpo pede para dormir, eu tento ouvir. Dormir é um limite, às vezes, é o limite que salva tudo o resto.

Caderno e lápis em cima da mesa

4) Fazer listas para não me perder

Listas é um hábito meu que se deve ao facto de ser uma pessoa ansiosa. Não é bonito, não é zen, mas ajuda-me imenso.

Fazer listas é uma forma prática de autocuidado quando:

  • a cabeça está cheia,
  • há demasiadas pontas soltas,
  • sentes que estás sempre a esquecer algo,
  • precisas de ordem para respirar melhor.

Eu não faço listas para ser perfeita, eu faço listas para ter menos ruído.

E isso também é autocuidado: criar estrutura suficiente para a mente descansar. Noutro dia vi um simples exercício de escrever tudo o que me preocupa ao longo do dia num caderno antes de ir dormir, que faz com que a mente vá dormir de forma tranquila. 

Talvez autocuidado não seja para partilhar, mas seja para sustentar

O autocuidado não tem de ser instagramável nem digno de um board do Pinterest. Tem de ser possível. Algo que cada um de nós consiga fazer e, sobretudo, sustentar. Algo que nos mantém inteiras mesmo quando ninguém está a ver.

Isso muda tudo, porque retira o autocuidado do lugar da performance e devolve-o ao sítio certo: o cuidado como base da vida, não como espetáculo.

Para mim autocuidado, não são só cremes, é:

  • desligar,
  • ficar,
  • dormir,
  • dizer “não”,
  • simplificar,
  • pedir ajuda,
  • fazer menos para conseguir manter.

Pode não parecer bonito, mas pode ser exatamente o que te permite continuar e aquilo de que precisas. 

Um convite simples (e muito real)

Se andas a sentir que “não estás a cuidar de ti como devias”, talvez a pergunta não seja o que falta fazer, mas outra bem mais simples:
o que é que me está a sustentar neste momento, mesmo que não seja bonito?

Porque, muitas vezes, o autocuidado mais importante não é o que se mostra, mas sim o que passa despercebido e mantém tudo em pé.

Se tiveres algum gesto ou hábito pouco bonito (mas essencial), partilha para que  mais pessoas possam adotar.

Mockup da checklist

Checklist

30 dicas para seres mais sustentável

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